Depois de intercalar a leitura do segundo romance de Virginia Woolf, Noite e Dia, com a biografia da Lispector, Clarice, [Benjamin Moser, Cosac Naify, 648 pp.], finalmente terminei de ler este. Para mim foram uma experiência, uma descoberta e uma reafirmação do que eu já sabia quanto ao “monstro sagrado” brasileiro-ucraniano. Não li nem metade do conjunto da obra da escritora, só alguns livros de contos e um romance, e acredito muito que tudo acontece na hora certa, porque agora farei com Clarice o mesmo que faço com Virginia para este ano: ler todos os livros na sequência em que foram publicados, um modo de analisar evolução, manias e etc.
Não farei resenha porque acho desnecessário, mas se você for um leitor dessa mulher, se entender o que se passa em sua alma perturbada, amarga, caótica, então só digo que tem de ler essa biografia cheia de esclarecimentos, fatos inéditos, segredos, toda sua história desde os antepassados que viviam na Ucrânia. Para quem não gosta de história, política, revoluções, toda aquela extensão de confrontos cheios de datas e líderes que aprendemos na escola [como eu nunca gostei], o livro pode ficar maçante em algumas partes, às vezes páginas seguidas, mas foi preciso inserir toda essa história para entender como Clarice chegou, como partiu, como brotaram suas dores, guardadas [erroneamente] na alma com um apego que perturba.
É difícil não pensar em amargura quando se pensa em Clarice Lispector, que a despeito de ter escrito beleza, amor, solidão, vazio, os recônditos de seus personagens [reflexos e pedaços dela mesma], foi uma dessas pessoas que criam um câncer porque estão cansadas de viver, pedindo a todo instante este câncer e que partam logo desta pra uma que acreditam ser melhor.
Uma história de alegrias e tristezas como de todo ser humano, mas crivada de detalhes muito particulares. Ler a biografia antes das obras é uma boa alternativa para entender melhor o mundo lispectoriano e o mistério que ele guarda – é o que farei, agora com uma ideia [falsa] de afinidade que torna, de antemão, estas obras um pouco mais próximas. Agora parto para outra biografia, de Virginia Woolf [edição de 1988 da Editora Guanabara, esgotada e só encontrada em sebos], escrita por seu sobrinho Quentin Bell há mais de vinte anos.