Os prazeres da caminhada

No sítio onde moro não há muitas estradas, não há caminhos muito planos, não se pode andar sem encontrar um formigueiro, uma aranha do tamanho de um pires passar correndo na sua frente, sem ouvir as folhas de um cedro, ou de um jacarandá, ou de um eucalipto, darem suas risadinhas ásperas quando o vento escorre em tardes quentes e pegajosas.

Mas há uma estrada principal que se bifurca logo na entrada, sendo a primeira a que leva à casa e à parte mais usada do sítio, e a outra, logo virando à esquerda depois da porteira, que contorna toda uma colina onde os eucaliptos e o capim vibram sem cerimônia, e que se estende até um platô onde estão as árvores mais orgulhosas – elas avisam às outras da chuva, dos raios ao longe; elas entendem o horizonte que lhes foi dado, sabem de tudo primeiro.

Pois nessa segunda estrada ando fazendo uma agradável caminhada com meus pais todos os dias, descobrindo cheiros, sensações, prestando atenção a cada detalhe que me surge e que me assusta de forma gentil. É dela que vemos a grande mata e a cabana de madeira no sopé, a casa lá embaixo com os cachorros, a mangueira, o sítio vizinho com sua plantação, seu carro abandonado, a antiga construção caiada e úmida.

Então, na curva onde um banco nos espera (sob uma árvore quase partida por um raio há alguns anos), furtamos o privilégio de todo aquele que está nas alturas e, finalmente, respiramos a luz mais horizontal.

ThingsMag #10

10Nov09 2 comentários

A ThingsMag, aquela revista de cultura de uma galera bacana de Porto Alegre, chegou à sua edição #10 toda reformulada, com um visual mais caprichado, seções bem-distribuídas num formato melhor do que nas outras edições. Agora sou colaborador da revista na seção Impressões, que trará a cada nova edição uma resenha de algum livro que está despontando. Na estreia como resenhista, falei do ótimo romance Sinuca embaixo d’água, da gaúcha (quase parisiense) Carol Bensimon.

Em capítulos rápidos, num ritmo fácil e sintetizado, Carol Bensimon criou um romance cheio de desafios, onde parte deles vem do próprio uso das palavras, de adjetivos bem-selecionados e da manutenção que se tem sobre cada uma das vozes, sendo outra parte da elaboração sentimental de uma dessas vozes para outra.

Quer mais? Se não mora nos arredores de POA para garantir seu exemplar, baixe o PDF da revista ou simplesmente leia página por página sem precisar baixar. Música, cinema, literatura, HQ, moda e muito mais. Edição suculenta!

Atrás da cortina

08Nov09 3 comentários

Agora que você afastou esta cortina, esta mesma, do mais puro e gelado branco, e que ainda assim sombreia o coração que aqui dentro bate musicado e triste, fique atrás dela e espere o segredo ser revelado. Porque cortinas guardam segredos, não seguram a luz, e toda escuridão que escapa é curiosidade dos olhos negros que te observam de um canto incomum. Embaixo da cama estão tuas roupas, e junto a elas ficam as caixinhas de mogno (sem as tampas) por onde deixei escorrer as mãos qualquer dia desses, e então os olhos, e então as mãos outra vez (trêmulas), e finalmente o silêncio que de tão alto pôs-se a soluçar na altura da garganta, sapateando sobre a úvula que chego a encostar com a língua. O quarto é o sacerdócio onde oramos o que não foi dito, silenciamos o que é incompreensível e meditamos inclinados, levemente dobrados para baixo, até que o sangue escoe para os ouvidos empapados de um som flautado e doce. Se o quarto é mesmo isso, a cama é a lápide que guarda as caixas, mortas há tanto, nem tuas, nem minhas, abandonadas no altar que é o chão por onde cruzamos, fluidos, durante tantos anos. Agora apenas se mostre, abandone o casulo, deixe a cortina balançar até a parada cardíaca do vento. Nosso segredo pulsa entre espirros de pontuação.

Conto morto

04Nov09 6 comentários

O que era pra ser lido aqui já foi enterrado, caixão pequeno onde cabe a concha do mar. Os gonzos de ouro, no canto, gritarão se a tampa for aberta. Deixe morrer, a palavra sussurra sua vontade dolorosa. Essa maré que rebenta aqui é eutanásia póstuma. O conto já morreu. Teus pêsames.

Não se preocupe, estou bem!

01Nov09 4 comentários

Este é o título em português para o filme francês Je vais bien, ne t’en fais pas, de Philippe Lioret, adaptado do romance homônimo de Olivier Adam.

Elise (Mélanie Laurent), sempre chamada de Lili durante o filme, é uma garota de 19 anos que volta para casa depois de férias na Espanha e descobre que seu irmão gêmeo está desaparecido há cinco dias após ter tido uma briga com o pai. Com vagas explicações tanto dele quanto da mãe, ela entra em depressão diante da ausência de resposta aos recados que deixa no celular do irmão; em poucos dias deixa de se alimentar, até finalmente ser internada num hospital com pressão baixa e fraqueza. Depois de uma frustrada tentativa de fugir do hospital com a ajuda de um casal de amigos, Lili ainda se recusa a comer, até que, não mais do que de repente, quando já está presa à cama e sendo alimentada por aparelhos, chega a primeira de uma série de cartas de Loïc, seu irmão, o que lhe fará voltar à vida e ter alta. Assim como as cartas, todo o filme tem um mesmo tom, de dor, de vazio, de coisa deixada pela metade. Loïc conta rapidamente dos bicos que anda fazendo para sobreviver, manda lembranças à irmã e à mãe e se refere ao pai com rancor, chamando-o de idiota ou comentando de sua “cara de morte”.

Todo esse clima aparentemente monótono começa a mudar quando Lili decide ir atrás do irmão, ao mesmo tempo em que descobre um sentimento mais forte na sua relação com o namorado da amiga (um caso que já não anda tão bem). Próximo ao fim, o longa sofre uma acelerada explosiva de segredos descobertos e sentimentos que se tornam muito mais nítidos, podendo, o telespectador, ter uma noção mais clara de cada personalidade que num primeiro momento parecia apenas um esboço.

Trilha sonora fluente e dramática, fotografia crua, cenas muito simples e diálogos convencionais, não do tipo enigmático que quase sempre enche a ficção. O que mais se destaca na história? A dor, a incerteza, a força da mentira e a aceitação da verdade.

Trailer:

Primeiro trecho

27Out09 8 comentários

Ao fechar o blog que falava do processo criativo do meu romance A festa dos suicidas, minha relutância estava no fato de divulgar demais a história, contar demais, explorar demais o que eu gostaria, por instinto e prazer, deixar crescendo em segredo, como uma planta desconhecida e exótica que cresce dentro de uma caixa lacrada e cheia de furos. Mas ao mesmo tempo tenho muito prazer em falar desse processo de criação e, por que não?, ir jogando alguns trechos do que escrevi. O trecho abaixo faz parte do capítulo 4 e é o primeiro que estou divulgando (veio a partir das imagens desse post sobre inspiração visual). Não é a versão final, porque a revisão/reescritura só acontece no ano que vem, então muitas coisas podem ser cortadas, acrescentadas, modificadas ou mesmo deixadas como estão – difícil porque sempre me aparece algo a ser mudado, nem que seja uma vírgula. Criei também uma categoria especial para o livro, e assim deixar organizado tudo o que eu vier a comentar e divulgar sobre ele.

Lígia foi na frente com Jonas, depois Val e eu por último, porque não levava lanterna. No meio da escada sentimos o calor avançar. Era como se o lugar tivesse um hálito amadeirado, do tipo de madeira que ficou o dia todo debaixo de um sol demoníaco de verão. Mas também havia aromas diferentes: álcool, terra, pedra molhada, grama, uma mistura úmida de mofo e mais madeira podre prestes a se desfazer.
Logo havíamos deixado os desconfortáveis degraus e estávamos sobre um curto trecho de terra batida, que então terminava em placas de ardósia quebradas cuja extensão mais à frente dava-se completa e regular até uma abertura em arco. Antes de avançarmos pelo porão, os feixes de luz das lanternas dançaram pelo teto (mostrando dois bocais estragados sem as lâmpadas) e pelas paredes (todas de tijolos aparentes caiadas pela metade). Onde o piso de ardósia começava, diante do arco, havia uma discreta elevação. Seguimos para o outro cômodo, passando por alguns canos de ferro que jaziam num canto e pulando uma poça de água barrenta.
Paramos numa saleta de teto baixo contornada por um complicado sistema de canos ferrugentos. Muito próximas à entrada, do nosso lado esquerdo, erguiam-se algumas cadeiras (ou o que restara delas), uma escrivaninha apodrecida sem as gavetas, uma cômoda, duas malas e algumas caixas de papelão lacradas. O lado direito era uma parede com manchas de umidade e com a pintura desgastada, cuja única serventia parecia ser a de dividir aquele cômodo de outro, por onde se chegava através de uma segunda abertura. Atravessamos a saleta bagunçada, porém limpa, com a ardósia formando um caminho de mosaicos até a outra sala, que se abria maior e profunda.
— O paraíso — suspirou Valéria.
Demorou algum tempo até que todos apontassem as lanternas na mesma direção. Na parede oposta e na adjacente, guardadas em armários envidraçados, suportes triangulares de ferro presos ao chão e ao teto, e em alguns tantos outros formando uma pirâmide de largos losangos de mogno, estavam centenas de garrafas de vinho. Foi só quando avançamos pela adega que vimos na outra parede, a mesma que a separava da saleta, mais três armários, estreitos e altos como caixões destampados, também cheios de vinho. Em sua maioria, as garrafas eram do mesmo tamanho, mas havia outras nas partes mais baixas, gordas e cobertas por uma grossa camada de poeira marrom.

Como fazer um livro artesanal

24Out09 8 comentários

Desde que fiz meu livro artesanal, muita gente vem encontrando O Margot com termos nas buscas sobre o assunto. O motor de busca do blog já contabiliza quase 200 pesquisas envolvendo livros artesanais, como fazer capas, como montar e tantas outras variações que me despertaram a atenção. Pensei: será que tanta gente assim deseja criar seus próprios livros? Antes eu acreditava que livros artesanais, feitos em casa mesmo, coisa de mão, corte e costura, desse sempre um resultado decadente ou nada digno de ser divulgado. Depois que fiz o meu, vi o quanto de arte existe ali, o quanto de esforço e, se feito com capricho e cuidado, o quanto de beleza pode haver numa edição literária homemade.

A intenção desse post não é ensinar profissional e detalhadamente a montagem de um livro, mas dar algumas dicas que podem ser usadas ou não, modificadas ou não, aceitas de qualquer forma, desde que seja útil pra quem quer fabricar a casa de papel onde sua cria imaginária vai morar.

  1. Se tiver um bom dinheiro para investir numa produção artesanal (falo mesmo da artesanal, porque se não for esse tipo, então use o dinheiro para pagar alguma editora voltada para serviços prestados à autores, digamos, “iniciantes”, como eu fiz com meu primeiro livro) compre bons papéis. Não vá comprar papel sulfite, A4 comum, ou qualquer coisa fraca e de má qualidade (papel reciclado não se encaixa aqui, porque há muitos reciclados bons). Compre um papel pólen bold, aquele de gramatura maior e amarelinho, dos 90g/m² em diante. Há sites que vendem esse material, papelaria e afins. Se não encontrar o pólen, há o comum, também de 90g, branco, que também fica bacana. Mas, se quer algo bem mais arrojado como eu quis com o meu, compre  um material mais pesado. É claro que você não vai usar cartolinas, porque amassam facilmente, não têm lá muita qualidade (porém há gosto pra tudo, disso eu sei). Eu usei Canson para fazer o meu: no miolo, papel creme de 200g/m², de textura levemente granulada, próprio para desenho, que adere muito bem a tinta, livre de ácido (não amarela com o tempo) e atóxico; na capa, papel de 300g/m², de textura verjurada, para aquarela, acrílico e pastel, também livre de ácido e atóxico. Falo por experiência e sobretudo por gosto: quanto mais caro o papel, melhor, e quanto melhor, mais belo e sofisticado o livro vai ficar (se feito com cuidado).
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  2. Depois da escolha do papel, pense no tamanho do seu livro. Se quer um livro grande (com folhas separadas, sem os famosos cadernos colados um ao lado do outro como vemos em todos os livros), deixe do tamanho da folha. Se não, faça como eu e use uma refiladora – ou tesoura e régua, se não tiver uma, mas aí é preciso cuidado redobrado. Eu comprei folhas Canson A4, que medidas e cortadas na refiladora, podem criar um livro do tamanho médio (convencional), que fica quase sempre na medida 14×21cm – ou seja, se tudo der certo, uma única folha A4 pode dar 4 páginas.
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  3. Então, antes de imprimir, escolha como vai unir as folhas: costura, grampos, furos – eu decidi que seriam eles, os furos. Fiz quatro furos (feitos com um furador de escritório comum) medidos com régua, folha por folha, e depois juntei as folhas com fitas de cetim. Dessa maneira o livro fica um pouco solto, “sambando”, mas não a ponto de parecer que foi atropelado. Se optar pela costura ou grampos, então as folhas do miolo não foram cortadas ao meio, e sim dobradas, certo? Nestas opções também é preciso uma medição para que tudo fique correto, e um pouco de cola – boa – é necessário para deixar tudo mais uniforme e preso à capa. Optei pelos furos por serem mais simples (aparentemente) e também artísticos, já que há o uso das fitas para unir todo o material. Há uma quarta opção: encadernação. Acho essa forma um pouco grosseira, devido às espirais, e também porque o livro fica com cara de apostila.
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  4. Depois de escolhido bem o tamanho, medindo tudo certinho, é preciso diagramar o seu texto. Eu diagramei o meu no Word mesmo, medindo as laterais, sempre pensando no centro do livro, onde ele será trabalhado, mudando o arquivo do formato de retrato para o de paisagem e imprimindo tudo depois das folhas já cortadas – lembrando: nunca cortadas ao meio se optar por um livro mais tradicional, de pequenos cadernos costurados e colados à capa, porque nesse caso elas são dobradas. Não é difícil, mas muito trabalhoso, e você precisa levar boas e compridas horas para imprimir tudo com as páginas certas e em lados corretos, virando sempre as folhas e colocando-as em ordem. O mesmo com a capa. No caso do meu livro, fiz uma capa de uma folha única deitada e dobrada sobre o miolo – e cuidado se fizer assim! Por quê? Porque as folhas do miolo precisam ter uma medida menor do que a medida da capa; se tudo tiver a mesma medida, na hora em que você dobrar a capa sobre o miolo, ele vai ser empurrado para o lado e ficará todo torto. A capa sempre precisa ser maior do que o miolo nesse caso. No caso da capa ser outra folha do miolo, sendo, então, o livro sem uma lombada “fechada”, isso não existe, e também não existe dor de cabeça (eu preferi um pouco de dor de cabeça porque queria uma folha inteira abraçando o miolo).
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  5. Depois de impresso, monte! Eu pintei as capas dos meus, uma por uma, com a ajuda de minha mãe, tendo impresso apenas meu nome. Se não tiver sua mãe, pai, alguém da sua família pra ajudar, chame os amigos, faça um mutirão artesanal e se suje à vontade, ou faça tudo você mesmo. O legal do livro artesanal é colocar a mão, suar sobre a sua obra. Eu fiz quase todos os meus sozinho, o que foi uma ótima experiência, inclusive terapêutica.

Então, se for vender, coloque um preço justo. Na balança: o tempo e esforço do seu trabalho textual, gasto com material, e finalmente tempo e esforço com a montagem do livro. Geralmente os artesanais mais refinados têm um preço final elevado (já vi casos em que o exemplar custava em torno de R$200), e outros, mais simples, podem custar muito barato – tudo depende do que usou, quanto gastou, o quanto se esforçou, e claro, alguma diferença que dê lucro, se estiver procurando por isso.

Se tiverem mais dúvidas, não tenham receio e perguntem nos comentários, que então tentarei dar mais respostas.

Porões e adegas

22Out09 4 comentários

Prometi a mim mesmo que termino o romance que estou escrevendo até dezembro. Há um desejo quase de fome gritando que isso é importante e minhas manias são maiores – uma delas é isso, querer receber o novo ano trabalhando sobre outro livro, novo e diferente. Para terminá-lo até lá (tenho quase dois meses), meu foco é claro, chega a ofuscar, e decidi escrever todo-santo-dia, sem choro nem vela, porque eu não costumo escrever todos os dias e pensei Por que não? Minha vida é isso! ‘Bora escrever sempre para a produção não esfriar!

Ontem peguei umas imagens do Flickr para o processo criativo. Vira e mexe lá estou eu, procurando imagens que me ajudem a entrar num clima mais profundo e real do que quero escrever. Não transformo em palavras exatamente o que está na imagem, é apenas um meio de visualizar todo um lugar e estar dentro dele com a ajuda das cenas e da imaginação, essa coisa perigosa e boa. Hoje à tarde escrevo uma cena que se passa num porão onde fica uma pequena adega, é a primeira vez que o lugar aparece na história e é também um dos mais importantes nela. Aqui vão algumas das imagens que salvei, porém sem os devidos créditos porque, como nunca as torno públicas, acho desnecessário saber de quem são.

Depois, quem sabe, publico um trecho da cena aqui no blog – se quiserem.

De moleskine e revista cultural

20Out09 4 comentários

Ontem, arrumando minha mesa, empilhando livros, tirando a poeira, arrumando cadernos por tamanho e guardando numa caixa de quinquilharias tudo o que parecia dispensável, abri meu pequeno moleskine e li algumas coisas que escrevi do ano passado pra cá. É nele que escrevo chispas de ideias, nesgas de histórias, olhares de esguelha de possíveis contos e romances que esperam nascer mesmo não tendo nada definido. Decidi colocar, muito de vez em quando, aqui no blog algumas dessas coisas que anotei nele e eis a primeira (escrita não-sei-quando porque não anoto data):

Um segredo revelado volta ao seu estado natural de segredo quando esquecido.

Não lembro como pensei nisso, nem quando, mas se anotei, foi porque me pareceu interessante e possível de se colocar numa história – tanto como ideia subjetiva, quanto fala de personagem ou pensamento.

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E a Revista Cultural Novitas #2 saiu. Trata-se de uma revista bem bacana da Editora Novitas, “uma editora para autores”, do Rio Grande do Sul, que vem crescendo muito e desenvolvendo um trabalho muito sério e competente com escritores independentes do Brasil e de outras partes do mundo. Hi-fi, meu pequeno conto já publicado aqui no blog, está lá na seção de contos com outros ótimos. Você pode baixar a revista ou fazer a leitura online. As matérias estão muito boas, desde um ensaio de Daliana Cascudo, passando pela música e história da banda Back, poesia, cartoon de Douglas Zimmermann, contos, até entrevistas com Bartolomomeu Campos de Queirós, Grace Olsson, e muito mais.

Lolita traduzida

16Out09 5 comentários

Recentemente adquiri uma edição de Lolita, do grande Vladimir Nabokov, publicada pela Companhia das Letras em 2001. Sei de outras edições mais recentes, uma da própria em formato bolso (que ainda comprarei) e outra da Editora Globo. Eu já tinha um exemplar muito antigo publicado pela extinta Círculo do Livro, comprado num sebo, com manchas, páginas amareladas, aquela cara de livro usado, pegado e lido. Quando esta edição de 2001 chegou, comparei as traduções e levei alguns sustos. Há algumas décadas separando as duas, o que torna muito diferente uma tradução da outra, e até mesmo dá margem a alguns erros.

Aqui o começo (eterno e inesquecível!) da versão antiga, traduzida por Brenno Silveira:

Lolita, luz de minha vida, fogo de meus flancos. Meu pecado, minha alma. Lolita: a ponta da língua fazendo uma viagem de três passos pelo céu da boca, a fim de bater de leve, no terceiro, de encontro aos dentes. Lo. Li. Ta.

E aqui da versão de 2001, traduzida por Jorio Dauster:

Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.

Particularmente, prefiro o início da primeira versão. Infelizmente não tenho a original, em inglês, para comparar erros ou disparates, mas dá para fazer uma boa e interessante comparação entre as traduções e se assustar um pouco. Na primeira, o nome Lolita não teve a separação de sílabas (uma pena, porque acredito que exista na original e dá o charme e significado que o autor queria com a explicação); a ponta da língua faz uma “viagem de três passos [...] a fim de bater de leve”, sendo que na segunda ela “desce em três saltos [...] para tropeçar de leve”; e há também outras palavrinhas que foram trocadas, ou melhoradas no sentido, depende de cada um.

No segundo parágrafo há um fato que muda entre as edições: a altura de Lolita. Na versão antiga

Era Lo, apenas Lo, pela manhã, com suas curtas meias e seu um metro e quarenta e oito centímetros de altura.

e na outra

Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete.

Um centímetro não muda o rumo da história, não decide se Humbert Humbert tem mais ou menos tesão por Lolita, mas me parece um erro estranho, e pode ser considerado grave se respeitarmos a ideia de um escritor como ela é, sem a desnecessária e errada intervenção de outras pessoas. Aqui também é possível notar que o nome sofreu uma leve ênfase com o uso do acento circunflexo, e que na primeira versão ela não foi colocada “calçando uma única meia soquete”, mas “com suas curtas meias” – o que dá no mesmo, claro, mas a mudança é grande.

Todos os outros parágrafos são diferentes de uma edição para outra e é até um bom passatempo ler os dois livros fazendo as comparações e tendo cócegas na curiosidade para ler o original e ver o que está certo, errado, próximo ou editado.

O antigo, que está caindo aos pedaços e foi perfurado por algum bichinho que não gosta da literatura nabokoviana, vai pro lixo, e assim minha rinite não se estende. Essa é outra razão de eu preferir livros novos: eles nunca atacam o meu nariz.