A luz

Existe uma luz que se desdobra e avança, e mergulha e logo recua, e surge de ondas vibratórias, a frequência emocional, dentro. Essa luz é o instante em que o pensamento se materializa em células e as células vibram em favor deste pensamento, seja ele claro ou escuro. Quando escuro, sente-se a dor; quando claro, o pensamento faz nascer o calor da sintonia macia e o corpo é uma compota de completude e ventos mornos, salgados, vindos de um mar interno que se desloca para órgãos e membros. A luz que criamos, o breu que criamos: a rua por onde seguimos encharcados de vida, somos nós os donos de nossas ruas. O coração só fica estreito quando toma-se a rua errada, e no fundo sabe-se do que ela é feita e onde vai dar. Pegue a travessa que desemboca no rio mais claro de suas certezas. Todos os medos pertencem às sombras das lajotas e devem nelas escorrer. Depois, adiante, nasce uma praia do pó de estrelas, das estrelas dos olhos, o ponto minúsculo de prata líquida no fundo das pupilas: lá está a praia cuja alma é intensa e eterna, e sobre ela se desenrola o melado som de espumas brilhantes.

imagem de Levan Kakabadze

Fechando as portas do livro artesanal

Com pouco mais de três meses no ar, o post Como fazer um livro artesanal passou das 1.000 visualizações, tudo porque todos os dias pessoas encontram o blog procurando dados de como fazer livros artesanais, onde encontrar papel assim e assado, através dos buscadores. Eu não sei realmente qual é a intenção deste post [se é que existe alguma], mas talvez seja para registrar minha surpresa com o número de pessoas que desejam criar um livro pra si ou pra amigos, saber como montar, como fazer a costura, todos esses itens que ajudam nessa construção.

O post publicado em outubro do ano passado não era para ser profissional, uma apostila explicando minuciosamente os passos e materiais a serem usados na confecção do livro, mas tão-somente umas poucas dicas, adquiridas por experiência própria. Vendi todos os meus exemplares, foi uma experiência muito bacana que me ensinou muito, que me deixou satisfeito, e agora não penso em repeti-la. Meus próximos livros serão publicados da maneira comum; toda essa história de artesanal foi só uma brincadeira que logo fará um ano, uma brincadeira que deu certo, que pode dar certo com quem se empenhar, e que foi, sobretudo, séria, porque eu queria ver meu conto Trincada transformado em algo físico num papel bom.

Para esses novos visitantes que encontram o blog, um aviso: não tentem criar o livro perfeito, porque por ser artesanal, o legal dele é ser mesmo meio torto, meio imperfeito, meio feito assim com “pregos e martelo”; não queiram chegar próximos à uma edição comum, costurando, colando, porque isso tira toda a beleza do manufaturado, e essa beleza (nem sempre perfeita) deve ser deixada para as gráficas que, sim, precisam fazer um trabalho impecável com os livros comerciais que lotam as livrarias, sebos e bibliotecas. Vão fundo com a sua criação, sem medo de serem criativos.

Clarice vírgula

Depois de intercalar a leitura do segundo romance de Virginia Woolf, Noite e Dia, com a biografia da Lispector, Clarice, [Benjamin Moser, Cosac Naify, 648 pp.], finalmente terminei de ler este. Para mim foram uma experiência, uma descoberta e uma reafirmação do que eu já sabia quanto ao “monstro sagrado” brasileiro-ucraniano. Não li nem metade do conjunto da obra da escritora, só alguns livros de contos e um romance, e acredito muito que tudo acontece na hora certa, porque agora farei com Clarice o mesmo que faço com Virginia para este ano: ler todos os livros na sequência em que foram publicados, um modo de analisar evolução, manias e etc.

Não farei resenha porque acho desnecessário, mas se você for um leitor dessa mulher, se entender o que se passa em sua alma perturbada, amarga, caótica, então só digo que tem de ler essa biografia cheia de esclarecimentos, fatos inéditos, segredos, toda sua história desde os antepassados que viviam na Ucrânia. Para quem não gosta de história, política, revoluções, toda aquela extensão de confrontos cheios de datas e líderes que aprendemos na escola [como eu nunca gostei], o livro pode ficar maçante em algumas partes, às vezes páginas seguidas, mas foi preciso inserir toda essa história para entender como Clarice chegou, como partiu, como brotaram suas dores, guardadas [erroneamente] na alma com um apego que perturba.

É difícil não pensar em amargura quando se pensa em Clarice Lispector, que a despeito de ter escrito beleza, amor, solidão, vazio, os recônditos de seus personagens [reflexos e pedaços dela mesma], foi uma dessas pessoas que criam um câncer porque estão cansadas de viver, pedindo a todo instante este câncer e que partam logo desta pra uma que acreditam ser melhor.

Uma história de alegrias e tristezas como de todo ser humano, mas crivada de detalhes muito particulares. Ler a biografia antes das obras é uma boa alternativa para entender melhor o mundo lispectoriano e o mistério que ele guarda – é o que farei, agora com uma ideia [falsa] de afinidade que torna, de antemão, estas obras um pouco mais próximas. Agora parto para outra biografia, de Virginia Woolf [edição de 1988 da Editora Guanabara, esgotada e só encontrada em sebos], escrita por seu sobrinho Quentin Bell há mais de vinte anos.

Aqui no sítio

As nuvens escurecem de urgência,

refletem o azul que as abraça,

o suspiro de cobre que escapa do sol,

ou deixam-se enfeitar na paleta brilhante de uma chuva estreita

para finalmente tornarem-se cor cinza escorrida.

Com a grama já temperada e remexida, vêm os gaviões;

uma garça rasga o crepúsculo frio e escuro;

e Mel encara com seus olhos de própolis.

Carta para Sylvia

Querida Sylvia,

Os anos passaram, nós ficamos naquele tempo de céu azul e algodão doce desfazendo-se na língua. Saudade dos teus braços cruzados mostrando os cotovelos secos, do cabelo levemente oleoso brilhando debaixo de uma luz violenta de um lampião a gás. Tanta saudade dos lábios finos: duas lâminas que cortam a noite em fatias de escuridão macia e molhada; dos lábios que abrem-se como uma flor carnuda à espera de engolir qualquer coisa minha: a abelha cintilante de asas de vidro, trepidando a alminha frágil que sou eu a voar até você; dos lábios que são minha lua em fase crescente, erguendo-se, voltando-se frescos e frágeis para cima, para o alto, para onde o teto aponta sua luz de sopa verde, chá de folhas, colcha de lã, tubo de graxa, lataria de carro, lápis de desenhar, esmeraldas de colares, olhos de lago. Resolvi comprar uma bicicleta amarela, mas caí logo nos primeiros cem metros. Disseram que isso não se esquece: eu esqueci: eu voei: caí em feno macio e vi o céu escoar em laranja e vermelho, depois roxo e finalmente aquela cor escura que encarna dentro das pedras. Um caminhão destruiu a bicicleta e dormi ali mesmo, no colo da grande noite, ouvindo seus suspiros, sentindo seu peito vibrar em mim. Saudade dos dias que suam; você suando em mim; nós num lençol frio de umidade; o quarto encharcado nas paredes, descascadas no calor das horas. Queria você aqui, nessa janela de onde escrevo, tomando esse chá gelado de laranja com gengibre, comendo partes da minha boca, dos meus braços, mordendo meus ombros e me fazendo rir com uma piadinha boba sobre os pássaros que correram atrás de você até a estação. Fico com o teu sentir que está aqui, fique com o meu que está aí. Choremos sorrisos. Vermelho é o olhar de quem já usou as próprias lágrimas como colírio.

Inesperado

Ligamos, desligamos. Ligamos outra vez e o vinho girou nessa vez, girou nas taças, parando e, sendo bom, escorreu o caldo amarelo formando as ferraduras. E falamos do céu quebrando a fluência dos prédios, não o contrário, falamos da cortina estranha com rosto de fantasma e coruja velha, falamos e desligamos. Ligamos e fui escovar os dentes e espirrei espuma branca no bocal, entrou nos furinhos, estragou tudo, ouvi um cleng e a noite ficou muda, fechou a boca, calou a lua e as nuvens tortas cor de mirtilo. O apê da frente pegou fogo, fiquei vendo a mulher gritar sem saber pronde ir, balançar a saia indiana e os cabelos secos de hena, duros de óleo. Liguei do celular e falei do fogo, do grito, da espuma. O telefone derreteu, meus dentes derreteram, olhos de bola-de-gude pingaram no chão, caí todo em sopa de resto e saudade, rosa e sorriso, riso e sorvete, raso e soturno.

Germina e Bula

Estou pra comentar há um tempo da minha página atualizada na revista Germina Literatura, que reúne os maiores e melhores escritores antigos e atuais; muita gente boa, muita arte boa, tudo cuidado pelas mãos delicadas e  mentes atenciosas de Silvana Guimarães e Mariza Lourenço. São seis pequenos contos, entre inéditos e outros publicados n’O Margot ou em blogs que descansam em paz.

***

E dia desses comentei no Twitter uma dúvida sobre uma cena de A festa dos suicidas e dessa dúvida surgiu um texto que a princípio seria publicado no blog, mas que viajou pra ótima Revista Bula, de jornalismo cultural, um trabalho de primeira feito por gente também de primeira, com edição de Carlos Willian Leite e Alfredo Bertunes. Vez ou outra haverá um texto meu na Bula, aí é só ficar de olho no link das colaborações aí na coluna da direita. Instantes de inércia aqui.

O gato do Marlon


© Murray Garrett

Esperar

Esperar. Esperar que o dia se despedace entre os dedos, atravessando a umidade acobreada desses dedos, e que as mãos sejam o berço da luz que escorre de nuvens. Porque o ouro é feito de luz sólida e sendo este um fato que criei ontem enquanto víamos o balão subir até encostar num veio de nada, acredite. Esperar que a noite suspire, que o peito escuro e inflado de estrelas repouse em seu silêncio, o silêncio que enche a lareira de sombras castanhas e que vai se espreguiçando pelas pedras, pelos blocos, pelos retratos, pelas molduras, ardósias, granitos, reflexos de horas negras de silêncio. Esperar que o calor dissolva a poça que nos abraça com braços molhados, o verão enfumaçado de cores assadas, o verão caindo dos lábios, descendo gargantas, escalando ideias que brotam com o suor da nuca. Esperar que o telefone não seja uma fatia de translúcida gelatina; que a calha não derreta parecendo um canudinho de milkshake mordido demais; que as janelas continuem com suas vidraças duras, não frágeis nem leves como a alma de um pedaço de papel-manteiga; que a pele não vire a goma de mascar presa no batente da porta; que toda essa grama onde deitamos enfim não vire sopa, nem nós as torradas crocantes de sol.


Foto de Irene S

O eterno otimista

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